quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O bocejo é contagioso?



Você está conversando com outra pessoa e ela boceja casualmente. Enquanto você se pergunta se ela está entendiada com a conversa, percebe que também está bocejando. Um homem que está passando vê você bocejando e em seguida boceja também. Isso continua sem parar, passando de uma pessoa para a outra, em um efeito dominó. A ciência ainda está investigando exatamente o que faz você bocejar, mas esse é um fato bem conhecido e pouco estudado: o bocejo é contagioso.



Mark Ralston/AFP/Getty Images

Os estudos apontaram que o bocejo contagioso está diretamente ligado à nossa capacidade de se conectar com os outros emocionalmente

Sabemos que muitos dos bocejos são causados por sugestão: eles são contagiosos. Você não precisa ver uma pessoa bocejando para involuntariamente bocejar também. Ouvir uma pessoa bocejando ou até mesmo ler sobre o bocejo pode causar a mesma reação. É provável que você boceje pelo menos uma vez enquanto estiver lendo este artigo.

O bocejo contagioso, porém, vai muito além da mera sugestão. Estudos recentes mostram que o fenômeno também está relacionado com nossa predisposição à empatia, à capacidade de entender e se conectar com os estados emocionais (em inglês) dos outros. Isso parece estranho, mas o fato de você ser ou não suscetível ao bocejo contagioso na verdade pode estar relacionado à quantidade de empatia que você sente pelos outros.

A empatia é uma parte importante do desenvolvimento cognitivo. Aprendemos desde cedo a nos valorizar com base na quantidade e no tipo de empatia que nossos pais demonstram. Psicólogos do desenvolvimento (em inglês) descobriram que pessoas que não foram tratadas com empatia por seus pais sofrem quando ficam mais velhas. A falta de empatia desde cedo foi apontada como uma causa do desenvolvimento de um comportamento anti-social em adultos [fonte: Montana].

Então a empatia é importante, claro, mas como é possível que ela esteja relacionada com o bocejo contagioso? Deixe que os psicólogos da Universidade Leeds (em inglês), na Inglaterra (em inglês), respondam a essa pergunta. No estudo, os pesquisadores selecionaram 40 estudantes de psicologia e 40 estudantes de engenharia. Cada estudante teve de ficar sozinho em uma sala de espera, junto com uma assistente disfarçada que bocejava 10 vezes durante a mesma quantidade de minutos. Em seguida, os estudantes realizaram um teste de quociente emocional: foram mostradas 40 imagens de olhos (em inglês) aos estudantes, e perguntaram a eles que emoção cada olho demonstrava.

Os resultados do teste apoiaram a idéia de que o bocejo contagioso está relacionado à empatia. Os estudantes de psicologia, que na futura profissão devem se concentrar nos outros, bocejaram uma média de 5,5 vezes de maneira contagiosa na sala de espera e acertaram 28 das 40 imagens no teste emocional. Os estudantes de engenharia, que tendem a se concentrar em coisas como números e sistemas, bocejaram uma média de 1,5 vez e acertaram 25,5 das 40 imagens no teste seguinte. A diferença não parece ser muita, mas os pesquisadores a consideram significativa. De maneira curiosa, as mulheres, que em geral são consideradas mais sintonizadas emocionalmente, não tiveram uma pontuação maior que a dos homens [fonte: The Telegraph].

Esses resultados apóiam o que os neurologistas descobriram por meio das imagens do cérebro: o bocejo contagioso está associado às mesmas partes do cérebro que lidam com a empatia. Essas regiões, o lóbulo quadrado e o giro temporal posterior, estão localizadas na parte de trás do cérebro. E embora a relação entre o bocejo contagioso e a empatia tenha sido estabelecida, as explicações para isso ainda estão sendo investigadas.

Os pesquisadores estão investigando o mundo dos distúrbios de desenvolvimento e dos primatas (em inglês) mais avançados para encontrar respostas para esse enigma. Na próxima seção, vamos dar uma olhada na relação entre a empatia e os animais e descobrir como o autismo afeta a empatia.

Primatas, autismo e bocejo contagioso


O bocejo pode ter uma série de funções e elas podem ser diferentes, dependendo de cada animal. Os humanos não são os únicos animais que bocejam - até mesmo os peixes fazem isso. Apenas os humanos e os chimpanzés, nossos parentes mais próximos no reino animal, demonstraram, contudo, um nítido bocejo contagioso.

Um estudo, realizado em Kyoto (em inglês), no Japão (em inglês), observou seis chimpanzés em cativeiro. Os chimpanzés viram vídeos de outros deles bocejando, junto com chimpanzés que abriam suas bocas mas não bocejavam. Dos seis chimpanzés, dois deles bocejaram de maneira contagiosa algumas vezes. O mais interessante é que, como as crianças humanas com menos de 5 anos, os três chimpanzés mais novos não se mostraram suscetíveis ao bocejo contagioso [fonte: MSNBC]



Rob Elliott/AFP/Getty Images

Os chimpanzés, como os humanos, podem ser suscetíveis ao bocejo contagioso

O autismo e o bocejo contagioso

Isso pode estar relacionado ao fato de que a empatia é ensinada e aprendida. Se o bocejo contagioso é resultado da empatia, então ele não existiria até que a capacidade de demonstrar empatia fosse aprendida. E se a empatia nunca for desenvolvida? Outro estudo, liderado pelo pesquisador cognitivo Atsushi Senju, procurou responder a essa pergunta.

Pessoas com distúrbio do espectro do autismo são consideradas debilitadas para se desenvolver emocionalmente. Os autistas têm dificuldade para se relacionar com os outros e sentir empatia. Como eles têm dificuldade de sentir empatia, não deveriam ser suscetíveis ao bocejo contagioso.

Para descobrir, Senju e seus colegas colocaram 48 crianças com idades entre 7 e 15 anos em uma sala com uma televisão. Vinte e quatro dos voluntários foram diagnosticados com distúrbio do espectro do autismo e a outra metade das crianças não era autista. Como no estudo com os chimpanzés em Kyoto, as crianças viram trechos de programas com pessoas bocejando e outros com pessoas abrindo suas bocas, mas sem bocejar. Enquanto as crianças com autismo tiveram a mesma ausência de reação aos dois tipos de trechos, as crianças que não eram autistas bocejaram mais depois dos trechos com pessoas bocejando [fonte: BPS].

Pode haver, contudo, uma outra interpretação para as descobertas de Senju. Os autistas tendem a se concentrar nas bocas das pessoas com as quais interagem. Acredita-se, contudo, que o bocejo contagioso seja marcado pelas mudanças na área ao redor dos olhos da pessoa que está bocejando e não pelos movimentos na área da boca. Isso poderia explicar por que os autistas são menos suscetíveis ao bocejo contagioso - talvez eles estejam apenas perdendo as pistas.

Essa idéia, no entanto, foi questionada por um outro estudo. Realizado por pesquisadores da Universidade de Yale, esse estudo examinou as reações de adultos autistas enquanto assistiam a cenas emocionantes do filme "Quem tem medo de Virginia Woolf?". Os pesquisadores descobriram que os autistas que se concentraram nos olhos dos personagens não registraram mais reações emocionais do que aqueles que se focaram na boca. Isso indica que o bocejo contagioso representa muito mais do que apenas pistas. Os autistas que observaram os olhos receberam poucas informações por meio das pistas que eles descobriram [fonte: Yale].

Ficou bastante claro que o bocejo contagioso está relacionado à empatia. Por quê? Talvez a melhor explicação para a questão de por que bocejamos, assim como de por que o bocejo é contagioso, possa ser encontrada ao redor do poço da savana, há dezenas de milhares de anos.

Alguns cientistas acreditam que o bocejo é uma resposta involuntária a uma situação estressante: quando bocejamos, aumentamos o fluxo de sangue para o cérebro, o que nos deixa mais alertas. O bocejo contagioso pode ser um método de comunicação silenciosa por meio do qual nossos ancestrais espalhavam a notícia de que um leão faminto estava por perto. O medo é uma emoção com a qual podemos nos identificar e o bocejo pode servir como uma pista para espalhar esse medo.

Então, quantas vezes você bocejou?

Fontes (em inglês)


•Fleming, Nic and Highfield, Roger. "Contagious Yawning 'Shows More Empathy With Other People's Feelings." Telegraph.co.uk. September 10, 2007. •Montana, Stephen, Ph.D. "Understanding Empathy." St. Luke Institute. May/June 2003. •Peart, Karen. "Results of Autism Research May Provide a Key to Determining Severity of Individual's Condition." Yale Bulletin and Calendar. October 25, 2002. •Randerson, James. "Why Engineers Yawn Less Than Psychologists." The Guardian. September 11, 2007. •Seward, Liz. "Contagious Yawn 'Sign of Empathy.'" BBC. September 10, 2007. •"Children With Autism Are Immune To Contagious Yawning." British Psychological Society. September 7, 2007. •"Chimps Just Can't Help Yawning Either: Study Finds Behavior Just As Contagious As In Humans." MSNBC. July 26, 2004. •"What is Empathy?" PsyBlog.

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